A invenção da Arte

A invenção da Arte

Larry Shiner, em seu livro “The Invention of Art” (2003), argumenta que a concepção moderna de “arte” é uma invenção relativamente recente na história humana, datando de cerca de duzentos anos na Europa. Shiner afirma que a noção de “arte” como um tipo de atividade separada e distinta da vida cotidiana e da produção artesanal surgiu na Europa durante o século XVIII, em um contexto histórico de mudanças sociais, políticas e culturais.

Antes disso, na maioria das sociedades pré-modernas, as atividades artísticas e artesanais eram consideradas parte integrante da vida cotidiana e do trabalho produtivo, sem serem distinguidas como atividades separadas e distintas. Além disso, muitas culturas não tinham uma palavra equivalente a “arte” em seus idiomas, sugerindo que a noção moderna de arte é uma construção cultural específica.

Shiner argumenta que a ideia de arte como uma forma de expressão individual e de criação de objetos belos e significativos surgiu em um contexto de mudanças sociais e culturais na Europa, incluindo a ascensão da burguesia, a revolução industrial e a separação crescente entre arte e artesanato. Essas mudanças, segundo Shiner, levaram a uma valorização crescente da originalidade, da expressão individual e da criatividade, que se refletiu na concepção moderna de arte.

No entanto, é importante notar que a concepção de arte como uma atividade separada e distintiva da vida cotidiana é uma construção cultural específica e não é universalmente compartilhada em todas as culturas e épocas históricas. A noção de “arte” como a entendemos hoje é uma construção histórica contingente e sujeita a mudanças ao longo do tempo e em diferentes contextos culturais.

Além da ideia central de que a concepção moderna de arte é uma invenção europeia recente, o livro de Shiner “The Invention of Art” oferece outras contribuições significativas para o estudo da história da arte e da cultura. Algumas delas são:

  1. A arte não é uma categoria universal e intemporal: Shiner argumenta que a noção de “arte” é uma construção cultural específica que varia de acordo com as diferentes épocas históricas e contextos culturais. Isso sugere que não podemos aplicar nossas categorias e valores modernos de arte a outras culturas e épocas sem levar em conta suas próprias definições e concepções de arte.
  2. A separação entre arte e artesanato é uma construção histórica: Shiner mostra como a noção moderna de “arte” como uma atividade separada e distintiva da produção artesanal surgiu em um contexto histórico específico. Antes disso, na maioria das culturas, as atividades artísticas e artesanais eram consideradas parte integrante da vida cotidiana e da produção.
  3. A importância da arte para a identidade cultural: Shiner argumenta que a invenção da arte como uma categoria distinta e valorizada na Europa moderna teve um papel fundamental na construção da identidade cultural europeia e na definição da arte como uma forma de expressão individual e de criação de objetos significativos e belos.
  4. A influência da arte no desenvolvimento da sociedade: Shiner mostra como a noção moderna de arte, como uma atividade valorizada e separada da produção artesanal, teve um impacto significativo no desenvolvimento da sociedade, influenciando a política, a economia e a cultura em geral.
  5. A crítica à visão “teleológica” da história da arte: Shiner questiona a visão linear e progressiva da história da arte, que sugere que a arte evoluiu de formas “inferiores” para formas “superiores”. Em vez disso, ele argumenta que devemos levar em conta a diversidade de culturas e contextos históricos e valorizar a arte em suas próprias definições e concepções locais.

A invenção da arte como uma categoria distinta e valorizada na Europa moderna teve um papel fundamental na construção da identidade cultural europeia e na definição da arte como uma forma de expressão individual e de criação de objetos significativos e belos, por várias razões:

  1. A arte tornou-se uma forma de distinção social: Na Europa moderna, a arte tornou-se um meio de diferenciação social, permitindo que as classes privilegiadas mostrassem seu gosto e cultura refinados. Ao possuir e patrocinar obras de arte, as elites demonstravam seu poder e status, enquanto a arte se tornava um símbolo de distinção social e cultural.
  2. A arte tornou-se uma forma de expressão individual: Com a valorização crescente da originalidade e da criatividade, a arte se tornou uma forma de expressão individual e de identidade pessoal. Os artistas eram vistos como gênios criativos, capazes de criar obras de arte únicas e inimitáveis, expressando suas emoções e ideias.
  3. A arte tornou-se uma forma de criação de objetos significativos e belos: Na Europa moderna, a arte foi separada da produção artesanal e tornou-se uma atividade autônoma, permitindo que os artistas se concentrassem na criação de obras de arte significativas e belas. A arte foi vista como uma forma de elevar a vida humana e de criar objetos que transcendiam a utilidade prática e se tornavam símbolos da cultura e da civilização.
  4. A arte tornou-se uma forma de construção da identidade cultural europeia: Com a difusão da arte como uma categoria distinta e valorizada na Europa, a arte se tornou um símbolo da identidade cultural europeia e da superioridade cultural da Europa em relação a outras culturas. A arte foi vista como uma expressão da alma europeia e como um meio de elevar a cultura e a civilização europeias.

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